domingo, 29 de julho de 2007
Bem-vindo
Não se sabe se estava correndo por ruas vazias ou se tentava povoar sua memória com falsas nostalgias que havia inventado. E não agüentava mais ouvir de si mesma que era tudo certo, que ia ficar tudo bem, porque era mentira, não havia de ficar tudo bem, as coisas simplesmente não mudariam por um capricho fantasioso que ela mesma custava a acreditar, os olhos desesperados a alertavam de que algo muito errado acontecera, e não teria concerto. Ou seria simplesmente ela que não teria concerto, teria finalmente se adaptado à ganância e ao egoísmo que todos estão acostumados a estabelecer como regra e segui-la. Isso não fazia nenhum sentido para ela, mas nesse momento, a rua vazia começava a encher-se de pessoas iguais, que acham a cura para o próprio veneno em terapeutas e livros de auto-ajuda. Sua alienação era diferente, era concreta. Acostuma-se cada vez mais com comentários de terceiros que passam como o vento ao tentar apagar a chama da vela. Prendia a respiração e segurava o choro para enganar seu ego ao tentar parecer forte, enquanto subitamente cristais frágeis quebravam-se pelas suas entranhas, isso corta, isso machuca e custa a parar. E continuava sem entender como isso poderia acontecer frente às seus olhos desesperados, que, por sorte mantém um filtro com a boca, fecha os olhos para não ouvir, mais, quando na verdade, isso nunca fez sentido nenhum para ela. Mas não precisam se preocupar, vai ficar tudo bem...
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Sinta.
O mistério me rodeava, olhava para porta, tudo escuro, eu mal via minha mão, debaixo da porta eu via a luz da sala acessa, levantei-me, mas antes percebi que meu colchão estava molhado, quando botei os pés no chão, senti aquele frio em meus pés, não vou descrever essa sensação a que senti, apenas lembrarei que havia sombras oscilantes e assustadoras, tal cenário me fazia lembrar de algum filme de terror, onde monstros sempre eram encharcados, de passagem falarei da liberdade das pombas, e da minha. Mas é só. O resto era o sentimento de sentir a água gelada sob meus pés pré-aquecidos no edredom, de sentir, essa a questão de qual se trata. Eu lembro que meu irmão sempre gostou de desenhar e ele fazia guerreiros com armaduras enormes, eu ainda sentia certo estoicismo, na relação de ter um passado tão singelo, meu irmão chegava sempre à min e perguntara sobre seu desenho, ´´eles possuem armaduras enormes, mas isso é somente uma carapaça que esconde o seus frágeis corpos de sentimento, assim como você``, isso era o que eu sempre dizia, ele ria , talvez por sempre ter sido uma criança ´´vivida``, ele nunca me compreendera. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo. ´´antes era perfeito, ter nascido me estragou a vida`` e quando falavam de amores e eu orgulhosamente negava tal dissonância cognitiva, mas era aí que mais amava. Então sob o por do sol abria os braços e sentia a liberdade dos pássaros, a musica das arvores, mas não me sentia ali, acho que estou com saudade de min mesmo, ou com medo. Preciso viver menos depressa. E sentir. A água? Era goteira. Aquela casa, finalmente mostrou que não era aquela gigante sombra no meio da rua, como a enorme sombra de uma arvore morta e frágil, assim como nós.
terça-feira, 24 de julho de 2007
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Sumindo, sumindo como as nuvens quando o sol aparece, e tentar fugir torna-se inevitável, e assim que a dor da falta te consome, só parece mais longe. E tentar contar o tempo de forma cronológica já não adianta mais, palavras são vagas, não preenchem vazios, é como se as arrancando de mim, viessem acompanhadas por um punhal de amargura que insiste em me consumir. E não há cura, é como um poço cavado no peito com uma colher, vagarosamente, cujo cada lagrima derramada, cada grito de pavor fossem interpretados como simples conflitos existenciais, é como tentar curar câncer com analgésico, estancar hemorragia com band-aid. O tempo não cura, o tempo tira, ele destrói, e não há porque lutar contra isso, é o inevitável, o futuro, a realidade, é a exatidão acompanhada do medo de acertar ou então a insegurança acompanhada do pânico de errar, é como viver.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Noites de chá e não-chá.
Não era a primeira vez que haviam me perguntado sobre a coleção de xícaras de chá. Habito antigo. Tínhamos marcado um encontro, ou como preferíamos simplesmente o chá, 15 para a meia-noite, era o horário que o encontro geralmente ocorria pela internet, nós encontramos por acaso em uma rede de relacionamentos, começávamos a conversar, sobre o destino inexorável e coisas banais, mas não eram simples conversas, havia certo intelectualismo de ambas as partes. Enquanto esperávamos convites de alguns amigos para sair, à uma hora da manhã, eles já não tinham mais importância. A noite de chá voltou a acontecer com uma critica freqüência, agente nem esperava os convites, eles eram inválidos essa hora, nós tínhamos hora pra voltar, eu sempre chegava primeiro, na espera, eu tomava chá, ela nunca soube disso, até que fiquei dependente. Todos estavam cansados, querendo voltar para cama, os amigos querendo ir beber, e eu e ela querendo ficar ali, conversando, até o sol raiar, no final nem lembrávamos do quê se tratava às conversas, até que chegara a hora de ir. No outro dia, estava eu de prontidão, esperando-a entrar na internet, só que ela não apareceu, para fazer tempo, fui comprar uma xícara nova em um desses mercados 24 horas, fazia o chá e ficava na frente do computador, mas foi a primeira de muitas outras noites de não-chá, enquanto isso minha coleção aumentava, até que um dia ela voltou e então tivemos talvez nossa ultima conversa durante tanto tempo. Um ano depois, ela volta, volta mais carinhosa, junto com ela volta também meu vicio e eu mais xícaras são adicionadas a minha coleção, e sim... Ela sumiu de novo.
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